As Mulheres


As mulheres que criam o mundo
Que carregam no ventre os homens mundanos
E imundos
As donas de casa
Que lavam a roupa e fazem a janta

As mulheres que amamentaram feras famintas
Que racharam os bicos
Em noites em claro
Os colos de mãe
Para as crianças
E as crianças adultas
Os avisos de mãe
Quase praga
O mimo da avó
Que só baba

E a mulher de pecado
Do corpo perfeito
Da bunda bonita
De trinta e três trinta e quatro
Porque de dezoito é menina
De vinte e poucos é jovem ainda
Só depois é mulher
De cama e de fato

A mulher é complexo
É medo de ruga
É sangue por dias.
É roupa que nunca tem
E que não acaba
É sapato que não combina
É cabelo que não agrada
É a visão periférica
É o flagra.
É o Victoria’s Secret

As mulheres machistas
Que dizem aos pequenos:
- Engole o choro, homem não chora.
Mas o pequeno era ainda menino!
E as feministas de sutiãs queimados
E os peitos de fora.

As mulheres matronas
Donas da casa, da ordem
Da palavra segura
E da cozinha arrumada

As mulheres da zona
Da Vila Mimosa e da Augusta
As polacas

As mulheres que mandam nos homens
Que são diretoras
Que são Presidentes
Ou Presidenta
Como elas queiram.
Agora é a Dilma
Que tenta por ordem na casa

As Marias da Penha
Dos maridos impunes

As mulheres amantes
As mulheres amadas
As musas da arte

As mulheres de Atenas
Que embarcam os homens na guerra
Que rezam pra Virgem Maria
Que criam dez filhos no Norte
Que doam os filhos pra sorte
Que são fieis aos maridos
Juraram na vida e na morte

Assumem no corpo
A fraqueza do sexo
E carregam no ventre
O juízo, o milagre, o amor e o mistério.
É a mulher a eternidade do mundo.


Thales Alves
08/03/2012

Street View

Perdemos nossa privacidade
O prazer da descoberta de um lugar
Os primeiros passos por uma rua.
O ato de observar e de conhecer.
Somos vistos por quem quiser nos ver.
O zoom chega à janela de nossas casas.
E quem quiser pode ver minha cachorra.
Meu quintal sujo.
Minhas roupas
não mais tão intimas no varal.
A evolução seduz e assusta.
Encanta e logo já causa repulsa.

Ao Google Street View.

Thales Alves
09//01/2012

Deixa a vida me levar...

De um passo curto para um piscar de olhos a vida se debanda para outro espaço e demanda um novo tempo no passo, um novo olhar, e haja tato na hora em que as coisas fogem ao alcance das mãos, do nosso desejar. A vida que não consulta o nosso querer nos enfia guela baixo a seguinte questão: em muitos momentos é a vida que nos leva. E como canta Zeca Pagodinho, "Deixa a vida me levar, vida leva eu", que nada mais é do que uma redenção pura, uma asserção de que nós somos peças de um jogo de xadrez a levar os xeque-mates da vida.
Talvez um dos males do homem moderno seja a dificuldade em estabelecer um relação saudável entre a responsabilidade dos próprios atos e os acasos da vida. Se o acaso for tudo aquilo que se passa sem ser planejado. É no ato de planejar que reside o conflito. O planejamento alimenta a ilusão do eterno. Calma. Não levem para o lado empresarial e não é disso que eu falo. Falo de levar a vida como se fosse uma empresa, e ela não é.
Planejamos tudo, as compras, as contas, as viagens de férias, os presentes e as demais despezas, sem se dar conta que o viver tá no meio de tudo isso. E depois que tudo vai pras cucuia, queremos nos dar o luxo de nos frustrar feito crianças mimadas. Desconbrindo então que há outro lugar em que pode morar o conflito, que é no entendimento e na compreensão. Para isso vamos ao psicanalista, e viva os psicanalistas e os psicólogos. 
A zona de conforto e o lugar-comum de repente "puft", somem, e entramos na crise da desilusão do engano, pois planejamos o ano inteiro numa tabela de excell sem saber o que comeremos no jantar, ou sendo um pouco mais cruel, sem saber se estaremos vivos. E não apenas a sombra negra da morte, pode nos roubar o lugar-comum e tirar-nos o tapete macio da zona de conforto, mas inúmeras outras tragédias e por que não paixões são capazes  disso. Enfim, rompemos os prazos, trocamos de emprego, rompemos amores, perdemos o controle da infinda cadeia de fatos que é a vida, desde cortar o dedo cortando pão, até fazer um filho, pode ser planejado ou não. Você corta o dedo com a faca de pão fazendo um lanche antes de ir pra festa, chega atrasado na festa, quando chega já estão todos embreagados, você é o que menos bebeu ao final, leva pra casa seu amigo que bebeu todas, evitando que ele batesse o carro. Parece clichê ou propaganda anti-drogas, mas não. É apenas um ilustração da cadeia de fatos em que o ser não escolheu nada.

Thales Alves
18-08-2011